quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Últimas Palavras


Parecia que hoje a voz que sussurava em meus ouvidos estava mais próxima. A voz dele me acompanhava por aquelas ruas frias de manhã e tentava me manter aquecida, mas era impossível evitar que o vento trouxesse o arrepio, tudo que ele conseguiria fazer era me ajudar a continuar andando...Parecia que a música que eu estava ouvindo passou por meus ouvidos e entrou em minha alma, na minha mente; ela me controlava por meio dos gritos e da dor. Eu me senti dentro daquela música como em nenhuma outra, parecia que ela tirava minhas forças, me impedia de respirar, eram as minhas últimas palavras e tudo que me restara para dizer era...Ao mesmo tempo eu refleti e cheguei a conclusão de que eu não sabia quais seriam minhas últimas palavras, eu me imaginava com a chance de falar a última coisa que podia e eu não tinha idéia do que.


Quando o vento soprou em meu rosto e o ar gelado me fez tremer por alguns instantes, as palavras vieram numa súbita narração em meus pensamentos: "Eu não gostaria de morrer amanhã ou depois, porque agora eu termino a minha vida feliz, sem rancor ou ódio, indiferente, e talvez agora seja mesmo a hora certa. Para mim, o melhor é que eu não sinto mais dor, nada mais importa, apenas me parece que eu vou adormecer, só que dessa vez, nada irá interromper o meu sonho, e eu vou poder finalmente ficar junto das coisas que amo sem ter as surpresas da vida para me atrapalhar, vou estar livre."


Eu nunca pensara nisso anteriormente, mas eu sei que é bom estar preparada, na verdade, eu creio que ninguém esteja, nada é como me parece agora, o que sabemos é muito pouco para definir os sentimentos de alguém que sabe que não acordará amanhã para ver o amanhecer, que não verá seus amigos ou que mudará algo de errado que já chegou a fazer, seria o fim, sem mais drama, sem qualquer outra chance.


A morte. Algo que nunca me assustou ou me causou pânico. Eu não tivera nada a perder, e para os outros também não seria uma perda, pois não faria diferença na minha existência ou não, a não ser para o Derry, mas ele não existe, é quase como eu, entretanto, eu sei que o valor dele ultrapassa os limites da realidade. Acho que ele viria comigo para qualquer lugar em que eu fosse...Mas será possível o amor se extinguir depois da morte? Essa era mais uma pergunta que apenas caberia a Derry responder, e de qualquer forma eu iria procurar pela resposta, mesmo sendo difícil compreender o que ele fala.



Quando eu estava passando pela praça vi Derry sentado no banco, provavelmente a minha espera, olhava para o céu violeta que ainda não havia clareado completamente, parecia que ele já aguardava algo vindo de mim, acho que estava ali especialmente para isso, o silêncio que ele manteve mesmo após eu me aproximar foi a confirmação, e ele me fitava com extrema seriedade, com seu nariz empinado passando a mão suavemente por seu queixo.


- Derry, pode me explicar algo? - Parecia que eu estava implorando pela atenção dele, minha voz saiu quase como um sussurro e tudo ao nosso redor tinha uma aparência mórbida e sombria, meus olhos pareciam ter modificado a cena original e transformado aquilo numa paisagem de um dia fúnebre, com nuvens cobrindo os poucos raios de sol que existiam por ali, as árvores estavam mortas, despidas de suas folhas espalhadas pelo chão, nuas apenas com seus galhos podres à mostra. O silêncio se estendeu por mais alguns segundos...



- Seja rápida, não temos muito tempo até o sinal da escola tocar... - Certamente, ele se referia a minha escola, pois ele nunca se importara em entrar no seu colégio, ele vestia aquele uniforme apenas para parecer um estudante normal; mas não era nenhuma das duas coisas. Eu não entendia por que ele procurava por uma identidade real se isso não fazia diferença, era tudo parte das centenas de mentiras da minha cabeça.



- Eu estava pensando...Você acha que um sentimento tão intenso como o amor pode acabar após a morte?



- Quando você morre todas as coisas que você tem desaparecem? As marcas que você deixou, as feridas que você causou... Não! Tudo que nós criamos, os sentimentos que fazemos as pessoas sentirem enquanto estamos vivos dificilmente se vai, e mesmo que pareça ir , nunca desaparece completamente...As lembranças, o rosto, o jeito...Tudo fica guardado na memória de todos que lhe conheceram. E as pessoas sentem dor quando se lembram que o causador de tantas boas recordações se foi.

O vento veio com mais intensidade, as folhas foram levadas e eu estava me encolhendo tentando prestar atenção no que Derry falava, mas os meus pensamentos estavam vagando por aí relembrando fatos atormentadores que eu pensara ter esquecido, só que ele continuava falando, baixo e firme, sentado no banco olhando para o céu.

- As pessoas sempre deixam rastros por onde passam, mas aqueles de que recordamos melhor é sempre a mancha de sangue deixada no peito, o sofrimento, os últimos acontecimentos antes da morte, o encontro final. - Eu não estava mais ouvindo o Derry, era a parte mais fria dele que estava falando, aquela parte dele que eu temia mais do que a paisagem sombria em que estávamos, no entanto, a menos frágil, aquela que não só falava a verdade como a estampava sem limitar a crueldade, a dor que esta provocava, era o reflexo do mal e do bem juntos, uma luz dupla que tanto me apavorava como me confortara em certas horas.

Desde da vez em que eu perguntei sobre a dor, era "a sombra" que respondia as perguntas mais profundas. Se os lhos dele chegassem nos meus, eu tinha certeza que a melhor parte dele voltaria, entretanto, tudo que ele observava era o vazio e ignorava o que eu fazia, era como se ele falasse sozinho, mas soubesse da minha presença. Cada frase era mais dolorosa, as pontadas pioravam e cada instante ele só ficava pior, isso para impedir que suas emoções voltassem e a máscara caísse.

- A dor e o amor deveriam ser sinônimos: ambos são a consequência do outro, e não existe amor sem dor, uma vez que você está disposto a se ferir para que o outro permaneça ileso, muitas feridas surgem, mas quando você perde aquilo pelo que lutava, algo lhe destroi por dentro e o que resta por fora é só uma carcaça... A pessoa especial se foi, e o que você tinha de especial morre junto. - Parou. As frases deprimentes explicativas chegaram a seu fim, quando eu me encontrara nas piores lembranças me distraí ao perceber que os olhos dele finalmente encontraram os meus e o sorriso timido havia se instalado no rosto dele novamente. Me faltava ar para falar algo, eu me sentia sufocada e pareceu que ele enxergou isso. - Parece que você não está se sentindo muito bem... Certo, acho que chega. Não vamos mais pensar nisso. É melhor você voltar.

Ao piscar, eu já estava no pátio vazio do colégio, e eu só tentava me lembrar do rosto dele sorrindo, mas era inútil, a cena que ficou gravada foi seu rosto frio e os gestos imparciais, aquela voz rígida e a falta de humanidade, o que separava dele todas as qualidades e defeitos, que o tornava a mais perfeita incógnita.


"Se você pudesse escolher entre não sentir sentimento algum ou poder sentir todos eles, provavelmente escolheria não sentir nada, mas, quando visse uma amizade ou um amor que parecesse nunca acabar entre outras pessoas, voltaria atrás. Depois de viver uma grande paixão com alguém e a pessoa que você amasse fosse embora, veria que cometeu um erro".
Parte do texto inspirado na música: The Famous Last Words, do My Chemical Romance.

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