quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Últimas Palavras


Parecia que hoje a voz que sussurava em meus ouvidos estava mais próxima. A voz dele me acompanhava por aquelas ruas frias de manhã e tentava me manter aquecida, mas era impossível evitar que o vento trouxesse o arrepio, tudo que ele conseguiria fazer era me ajudar a continuar andando...Parecia que a música que eu estava ouvindo passou por meus ouvidos e entrou em minha alma, na minha mente; ela me controlava por meio dos gritos e da dor. Eu me senti dentro daquela música como em nenhuma outra, parecia que ela tirava minhas forças, me impedia de respirar, eram as minhas últimas palavras e tudo que me restara para dizer era...Ao mesmo tempo eu refleti e cheguei a conclusão de que eu não sabia quais seriam minhas últimas palavras, eu me imaginava com a chance de falar a última coisa que podia e eu não tinha idéia do que.


Quando o vento soprou em meu rosto e o ar gelado me fez tremer por alguns instantes, as palavras vieram numa súbita narração em meus pensamentos: "Eu não gostaria de morrer amanhã ou depois, porque agora eu termino a minha vida feliz, sem rancor ou ódio, indiferente, e talvez agora seja mesmo a hora certa. Para mim, o melhor é que eu não sinto mais dor, nada mais importa, apenas me parece que eu vou adormecer, só que dessa vez, nada irá interromper o meu sonho, e eu vou poder finalmente ficar junto das coisas que amo sem ter as surpresas da vida para me atrapalhar, vou estar livre."


Eu nunca pensara nisso anteriormente, mas eu sei que é bom estar preparada, na verdade, eu creio que ninguém esteja, nada é como me parece agora, o que sabemos é muito pouco para definir os sentimentos de alguém que sabe que não acordará amanhã para ver o amanhecer, que não verá seus amigos ou que mudará algo de errado que já chegou a fazer, seria o fim, sem mais drama, sem qualquer outra chance.


A morte. Algo que nunca me assustou ou me causou pânico. Eu não tivera nada a perder, e para os outros também não seria uma perda, pois não faria diferença na minha existência ou não, a não ser para o Derry, mas ele não existe, é quase como eu, entretanto, eu sei que o valor dele ultrapassa os limites da realidade. Acho que ele viria comigo para qualquer lugar em que eu fosse...Mas será possível o amor se extinguir depois da morte? Essa era mais uma pergunta que apenas caberia a Derry responder, e de qualquer forma eu iria procurar pela resposta, mesmo sendo difícil compreender o que ele fala.



Quando eu estava passando pela praça vi Derry sentado no banco, provavelmente a minha espera, olhava para o céu violeta que ainda não havia clareado completamente, parecia que ele já aguardava algo vindo de mim, acho que estava ali especialmente para isso, o silêncio que ele manteve mesmo após eu me aproximar foi a confirmação, e ele me fitava com extrema seriedade, com seu nariz empinado passando a mão suavemente por seu queixo.


- Derry, pode me explicar algo? - Parecia que eu estava implorando pela atenção dele, minha voz saiu quase como um sussurro e tudo ao nosso redor tinha uma aparência mórbida e sombria, meus olhos pareciam ter modificado a cena original e transformado aquilo numa paisagem de um dia fúnebre, com nuvens cobrindo os poucos raios de sol que existiam por ali, as árvores estavam mortas, despidas de suas folhas espalhadas pelo chão, nuas apenas com seus galhos podres à mostra. O silêncio se estendeu por mais alguns segundos...



- Seja rápida, não temos muito tempo até o sinal da escola tocar... - Certamente, ele se referia a minha escola, pois ele nunca se importara em entrar no seu colégio, ele vestia aquele uniforme apenas para parecer um estudante normal; mas não era nenhuma das duas coisas. Eu não entendia por que ele procurava por uma identidade real se isso não fazia diferença, era tudo parte das centenas de mentiras da minha cabeça.



- Eu estava pensando...Você acha que um sentimento tão intenso como o amor pode acabar após a morte?



- Quando você morre todas as coisas que você tem desaparecem? As marcas que você deixou, as feridas que você causou... Não! Tudo que nós criamos, os sentimentos que fazemos as pessoas sentirem enquanto estamos vivos dificilmente se vai, e mesmo que pareça ir , nunca desaparece completamente...As lembranças, o rosto, o jeito...Tudo fica guardado na memória de todos que lhe conheceram. E as pessoas sentem dor quando se lembram que o causador de tantas boas recordações se foi.

O vento veio com mais intensidade, as folhas foram levadas e eu estava me encolhendo tentando prestar atenção no que Derry falava, mas os meus pensamentos estavam vagando por aí relembrando fatos atormentadores que eu pensara ter esquecido, só que ele continuava falando, baixo e firme, sentado no banco olhando para o céu.

- As pessoas sempre deixam rastros por onde passam, mas aqueles de que recordamos melhor é sempre a mancha de sangue deixada no peito, o sofrimento, os últimos acontecimentos antes da morte, o encontro final. - Eu não estava mais ouvindo o Derry, era a parte mais fria dele que estava falando, aquela parte dele que eu temia mais do que a paisagem sombria em que estávamos, no entanto, a menos frágil, aquela que não só falava a verdade como a estampava sem limitar a crueldade, a dor que esta provocava, era o reflexo do mal e do bem juntos, uma luz dupla que tanto me apavorava como me confortara em certas horas.

Desde da vez em que eu perguntei sobre a dor, era "a sombra" que respondia as perguntas mais profundas. Se os lhos dele chegassem nos meus, eu tinha certeza que a melhor parte dele voltaria, entretanto, tudo que ele observava era o vazio e ignorava o que eu fazia, era como se ele falasse sozinho, mas soubesse da minha presença. Cada frase era mais dolorosa, as pontadas pioravam e cada instante ele só ficava pior, isso para impedir que suas emoções voltassem e a máscara caísse.

- A dor e o amor deveriam ser sinônimos: ambos são a consequência do outro, e não existe amor sem dor, uma vez que você está disposto a se ferir para que o outro permaneça ileso, muitas feridas surgem, mas quando você perde aquilo pelo que lutava, algo lhe destroi por dentro e o que resta por fora é só uma carcaça... A pessoa especial se foi, e o que você tinha de especial morre junto. - Parou. As frases deprimentes explicativas chegaram a seu fim, quando eu me encontrara nas piores lembranças me distraí ao perceber que os olhos dele finalmente encontraram os meus e o sorriso timido havia se instalado no rosto dele novamente. Me faltava ar para falar algo, eu me sentia sufocada e pareceu que ele enxergou isso. - Parece que você não está se sentindo muito bem... Certo, acho que chega. Não vamos mais pensar nisso. É melhor você voltar.

Ao piscar, eu já estava no pátio vazio do colégio, e eu só tentava me lembrar do rosto dele sorrindo, mas era inútil, a cena que ficou gravada foi seu rosto frio e os gestos imparciais, aquela voz rígida e a falta de humanidade, o que separava dele todas as qualidades e defeitos, que o tornava a mais perfeita incógnita.


"Se você pudesse escolher entre não sentir sentimento algum ou poder sentir todos eles, provavelmente escolheria não sentir nada, mas, quando visse uma amizade ou um amor que parecesse nunca acabar entre outras pessoas, voltaria atrás. Depois de viver uma grande paixão com alguém e a pessoa que você amasse fosse embora, veria que cometeu um erro".
Parte do texto inspirado na música: The Famous Last Words, do My Chemical Romance.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

10/05/09 A luz vinda da escuridão


Se tinha algo que eu precisava mudar nesse momento, certamente seria o hábito de me trancar num quarto e ficar jogando video-game por horas, eu me sentia sozinha e perdida e tinha horas que lágrimas escorriam de meus olhos – eu só não sabia se era pelo tempo que eu passava fitando a tela ou por sentir um espaço vazio dentro de mim – e eu esquecia qual era meu nome e o que eu estava fazendo.
A claridade do quarto ia indo embora, o céu se escurecia e eu percebia que meu tempo passou sem eu nem notar, sem eu usá-lo adequadamente.
Como sempre, quando o vazio tomava conta do local e minha mente se enchia de dúvidas, tinha uma pessoa que eu procurava entre meus pensamentos para me socorrer.
Eu me perguntava o que eu precisava fazer primeiramente para sair daquele quarto, e era óbvio: mudar.
- Sabe Derry, há coisas que eu odeio. Entre todas elas é me sentir sozinha e esquecida, como se não houvesse diferença na minha presença e eu fosse invisível.
- Gozado, eu me lembro de você ter dito que queria isso há um tempo atrás, se lembra? – Os risos sarcásticos dele eram a coisa mais irritante que eu ouvia naquele momento, mesmo porque, ele tinha razão.
- Enquanto o tempo passa, eu vou percebendo que existem coisas em mim que eu não conhecia, na verdade, é possível que você saiba mais sobre mim do que eu mesma. – Eu realmente estava perdida, eu e Derry não estávamos em lugar algum, era uma zona completamente escura mas era como se nós fossemos radiados por uma luz própria.
- É bom você não conhecer certas partes que existem em você, quando começa as conhecer elas se libertam e às vezes, elas lhe tornam uma pessoa ruim. Todos nós temos um lado mal por dentro e cabe a nós decidir se vamos deixá-lo sair ou não. – Derry andava ao meu redor, olhando em meus olhos e falando com voz firme, não parecia o Derry que eu conhecia, talvez isso explicasse o ambiente escuro.
- Talvez você esteja certo...Só que às vezes, é preciso mudar. Não acha? – Ele me fitou e franziu a testa, mas em alguns segundo ele voltou a me encarar de novo, e parecia não concordar com o que eu disse, enquanto isso, eu continuava na minha indecisão constante.
- Depende, existem mudanças naturais que são inevitáveis de acordo com nossas novas experiências. Agora...Existem coisas que queremos mudar por conta própria. De qual dessas estamos falando?
- Você sabe...Olhe para mim! Repare ao meu redor, eu estou sozinha! E sabe qual a pior parte? Eu aprendi a me acostumar com isso, mas não deixa de doer todas as vezes que eu penso nisso conversando com você, só mostra o quanto eu sou solitária. – Parecia que eu estava gritando, elevando minha voz ao máximo, discutindo com ele sendo que ele não tinha nada a ver com o meu problema, ao invés disso, ele estava tentando me ajudar.
- Sabe qual é o problema? Você aprendeu a querer fazer as coisas sozinha, eu só gostaria de saber por que... – Ele parecia confuso, pensativo. Agora era eu que tinha que responder uma pergunta.
- A resposta seria decepção, lembra-se de quantas vezes eu fui deixada de lado? Você não tem idéia do que é ser abandonado na hora em que mais precisa...Procurar por uma pessoa e não a encontrar, até perceber que está sozinho! A única coisa que resta é o silêncio doloroso naquele quarto escuro, e nesse momento, você promete a si mesmo que não vai mais criar ilusões e muito menos esperar por ajuda, game over. – Meus olhos se embaçaram, as lágrimas escorriam sem parar e eu não conseguia mais enxergar o rosto dele, nem qualquer outra coisa ao redor.
Derry passou seus dedo embaixo de meus olhos para limpar minhas lágrimas, ele estava agindo como o menino carinhoso e doce de sempre, só que a conversa não terminaria ali assim.
- Será que não é preciso que você peça ajuda? As pessoas não adivinham o que você sente, Jess. Parece que você oculta tudo isso em algum lugar e deixa trancado, mas parece que agora sentiu que não há espaço para tanta dor e resolveu libertá-la...Existe só uma forma dela ir: pare de torturar a si mesma com lembranças e rancor, renasça e deixe tudo isso para trás, apenas não se esqueça de suas virtudes e de tudo que você ama, porque certamente essas coisas nunca esqueceram de você. – Derry parecia um antídoto para aquele meu momento turbulento, suas palavras me alegraram e o rancor do abandono que eu sentia sumira, como poeira no vento.
- Sei lá...Não é só pelo que eu sinto. Quando me olho no espelho vejo uma fracassada. – Comecei a fitar o chão, com a cabeça baixa e a minha estatura ereta. Era cedo demais para alegar que os sentimentos ruins foram embora.
- O problema é que você se deixa levar pelo que os outros pensam. E como vai ser possível alguém saber o quanto você é especial se o que pensa de si mesma é o oposto? Querida, lembre-se, seus olhos refletem aquilo que você sente, mas sua alma guarda aquilo que você é realmente.
Pare de omitir essa parte e deixe todos verem o que existe aí dentro. – Derry era tão sábio, cada coisa ruim que eu falava era apenas um degrau para ele ir mais além, com poucas palavras ele me encantava, seus olhos radiantes e sinceros me cativavam e com isso ele transformara meu humor radicalmente.
- Acredito que as outras pessoas tem muito mais a mostrar do que eu... – O fantasma do complexo de inferioridade não me deixava, era quase como uma acompanhante invisível e um tormento irritante que parecia me fazer pensar que não era saudável levar a conversa de Derry a sério. Pessoas como eu normalmente não conseguem reverter seu destino, ficar escondida numa sombra a espreita da felicidade, ate que enfim, conclua que ela nunca irá sorrir para mim.-
Não é necessário quantidade, desde que se tenha qualidade e sinceridade. As suas qualidades vão além do que imagina...Tudo que tem a fazer é esquecer o pensamento alheio e permitir que vejam você por inteira. É possível que alguns não notem, mas alguém vai notar que está diante de uma pessoa diferente, que tem caráter e é honesta, e esse sujeito vai preencher esse vazio que está sentindo agora. – Depois de me dizer isso ele desapareceu na escuridão da minha mente e eu retornei do meu devaneio. Sem esquecer de suas últimas palavras, isso jamais.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

06/05/09 - Parte II


Eu cheguei a rua escura e deserta de sempre e olhava para a lua para que ela me guiasse a Derry e parece que funcionou.
Avistei Derry e seus amigos, eles estavam guardando os instrumentos no estúdio, fiquei encostada na parede, escondida numa sombra perto de uma árvore observando Derry. Quando todos fecharam o estúdio e tomaram seu rumo, ele veio falar comigo. Provavelmente, ninguém sabia da minha existência e o nosso relacionamento era mais um dos segredos de Derry, como muitos outros que ele mantinha para esconder sua antiga vida.
Derry se aproximou como uma suave brisa quase imperceptível e me segurou pela cintura, cobrindo-me do frio intenso daquela noite ao me envolver confortavelmente aquecida em seus braços. Segurei as mãos dele enquanto meu sangue pulsava enlouquecidamente dentre as veias, o meu coração batia de forma descontrolada assemelhando-se a uma bomba ou o tic-tac do relógio.
Olhei novamente para a lua e depois para o conjunto de estrelas no céu, parecia um desenho coberto com porpurina cintilante. A brisa bateu e carregou com ela algumas folhas da árvore, Derry me segurou mais forte e colocou sua cabeça acima de meu ombro.
- Senti sua falta, agradeço por me dar o prazer de recebê-la aqui de noite...À luz da lua. O céu está maravilhoso, creio que amanhã será um belo dia! – Derry estava impregnado de uma felicidade curiosa...Certamente convencido a me fazer sorrir, e eu estava encantada com suas palavras e o seu jeito carinhoso e romântico.
- Se eu tivesse direito a um desejo...Gostaria que a noite nunca terminasse, assim poderíamos ser iluminados pelo majestoso brilho da lua eternamente e juntamente desfrutar do brilho desses milhares de estrelas que se encontram absurdamente radiantes hoje. Só o que pretendo ouvir agora é o intenso silêncio dessa rua para apreciar o som da sua voz murmurando ao redor de meus ouvidos. – O rosto de Derry corou abrindo um imenso sorriso em sua face, quando o fitei quase me perdi no seu olhar penetrante nauseada com tamanha efervescência com que este se encontrava, mas logo ele desviou o olhar e voltou ao seu jeito tímido e ligeiramente lisonjeado com o que eu falei anteriormente.
- Os dias por aqui costumam ser iguais e rontineiros, talvez um dia eu possa lhe apresentar as mais incríveis e surpreendentes regiões do planeta, mas só se você quiser... – Pelo tom de Derry, ele planejava algo grande, uma verdadeira viagem inesquecível com cenas que eu jamais vira, do modo como ele disse, a minha vontade se manifestou rapidamente e naquele instante, eu senti vontade de largar tudo e fazer exatamente isso, porém, eu estava certa que ainda demoraria muito para organizarmos algo dessa grandeza.
- É claro que eu adoraria fazer isso!Pode ao menos me contar quando iremos? – Minha voz saiu com mais euforia do que eu planejava, num som quase rouco e desesperado.
- Não sei ainda...Mas vai acontecer um dia, eu garanto. – Derry e eu começamos a caminhar lentamente, todas as lojas e estabelecimentos estavam fechados, já era tarde, mas para mim não fazia diferença desde que eu estivesse com Derry.
Nós passamos por algumas ruas muito escuras, onde encontravam-se postes apagados e uma escuridão assustadora, meu corpo todo formigava de medo.
O que antes era uma leve brisa se transformou numa forte ventania que levava consigo a poeira e movimentava com força os galhos de várias árvores, estava muito difícil seguir caminho contra o vento, então, viramos na primeira rua e assim, pegamos um atalho para chegar a casa de Derry.
Logo quando chegamos lá, ele se entou na varanda em sua cadeira de balanço e me apresentou o cachorro dele: Spike, um cão de raça Beagle com pelagem marrom caramelada e branca, com manchas escuras, pêlo curto. O cachorro dele corria para todos os lados agitado, parecia feliz por um dos donos ter chegado em casa.
Me aproximei com cautela para junto de Derry, eu temia que Spike me estranhasse, mas tudo que ele fez foi ficar farejando meus tênis e a minha calça, provavelmente, estava sentindo o cheiro do Ted (meu poodle), enquanto eu olhava Derry, senti a sensação de algo quente e asqueroso tocando meus dedos, era Spike de novo, me lambendo. Depois, só vi o cachorro trotando para o canto do quintal, indo se deitar.
- Não se preocupe. Spike é um cachorro muito compreensivo, sabe lidar com pessoas estranhas, mas...Me fale de você, com qual objetivo você foi me visitar perto do estúdio?Tem algo importante a me dizer? – Havia começado o pânico de perguntas diretas de novo, as dúvidas mais frequentes dele sempre atacavam a parte que eu não planejava comentar, as piores lembranças...
- Não, eu precisava ver você pra me sentir melhor. Sabe aquele filme que eu combinei de ver com algumas amigas? Não deu certo, elas até me avisaram com antecedência que não iam...Então eu fui sozinha, é péssimo ficar numa sala escura cercada de estranhos congelando com o frio do ar-condicionado e entrar numa dor de cabeça infernal com os efeitos sonoros ensurdecerdores dos alto falantes. – Falar sobre aquilo me puxou uma tristeza e uma melancolia irritante, relembrar disso era só perda de tempo, dar mais algumas pontadas no meu peito dolorido cansado de receber tantas decepções em tão pouco tempo.
- Hum, eu queria dizer: “podia ser pior” mas do que ia adiantar? Eu sei que é terrível criar ilusões de que o dia será divertido e acabar entediado num canto jogado sofrendo pelo abandono dos outros, olhe pelo lado bom: amanhã você vai poder reinventar o seu dia, fazer algo de útil talvez, sempre existem mais chances. – Otimismo era algo que me faltava na maioria das situações, graças ao apoio de Derry eu podia conquistar alguma esperança, mesmo desacreditando que o otimismo fosse a única saída para se resolver tudo.
- Nem tudo foi chato, eu comprei um jogo novo após ficar andando por umas ruas estranhas por aí, teve um momento que eu achei que estava meio perdida, para você ver como eu não conheço a minha própria cidade... – Ele riu mesmo me vendo séria, depois parou e voltou ao assunto com uma certa ironia.
- Comprou outro jogo do GTA(Grand theft auto)? – Por mais que eu já tivesse sido viciada nesse jogo, os tempos mudaram, agora eu tinha um estilo diferente, completamente diferente para ser sincera mas não menos intrigante, mudanças são inevitáveis, mas algumas coisas são estranhas, até para mim.
- Hã?Tá louco?A minha nova modinha agora é Guitar Hero, cansei de ficar correndo pelas ruas de Miami matando pessoas e atropelando velhinhas lerdas sem ter ao menos um motivo, prefiro fingir que sei tocar guitarra com aquele barulho estonteante e pregar meus olhos nos botões coloridos que aparecem na tela, sem esquecer de cansar meus dedos apertando enfurecidamente o joystick exausta de tanto jogar. – Enquanto eu falava minhas asneiras, Derry colocou sua maopor baix do queixo e os dedos na lateral do rosto para apoiar sua babeça em seu braço com o cotovelo fincado em sua perna suportando minha tagarelice com seus ataques de risada silenciosos. Mesmo com dificuldade ele mantinha a classe, coisa que eu raramente fazia.
- Concordo que é muito melhor tocar uma música do Jimi Hendrix do que metralhar um cara duma gangue inimiga, aliás, em que nível você joga? – Momento pagação de mico, abafem que eu ainda jogava na incrível lerdeza do médio, me acostumei em querer abalar nos níveis de amadores.
- É...bem, eu jogo no médium. – Como eu previa, ele fez uma careta debochada se gloriando por algo, que provavelmente seria sua habilidade com esse jogo num nível mais avançado.
- Ainda? Esse nível é muito chato, eu jogo no hard, é bem mais dificil mas também é muito mais delirante, você deveria tentar um dia. No começo é um saco pra se acostumar com o maldito botão laranja mas depois...Passa a ficar interessante. Exceto pelas sequências, é impossível acertar todas elas vindo com tamanha velocidade.
Continuamos trocando conversa sobre o jogo durante um bom tempo, muitos minutos se passaram, quem sabe horas, não sei ao certo, como dizem: “a noite é uma criança”, eu podia ouir um grilo, a cor do céu parecia mais sombria, o movimento da rua desaparecera assim como as pessoas que estavam por lá até agora pouco.
- Dear, it’s eleven p.m. You have to go sleep, I don’t wanna see you tired in the school tomorrow, are you listening me? – Quando ele falava em inglês era dificil discutir, minhas únicas opções eram sim e não, e eu não ousaria optar pela minha péssima pronúncia e um sotaque mais que ininteligível que eu mantinha.
- Sure, you are right, I’ll go to home, you come with me? – O balanço da cadeira cessou e Derry se levantou cheio de disposição, seus olhos pesavam sonolentos, entretanto, seus passos eram curto e apressados, precipitou-se em abrir o portão para garantir que não houvesse possibilidade de eu tentar alongar nosso papo, a sagacidade dele me impressionava.
- Yes, honey, I couldn’t leave you alone at this time, the street is so dangerous, you know. – Passamos pelo portão e eu aguardei enquanto ele o fechava ouvindo o ranger do portão enferrujado, sem razão alguma eu dei tchau ao Spike, que nos fitava com um olhar tristonho da sua casinha, prestes a adormecer subitamente, por fim, o cansaço o venceria, como a todos nós.
Derry optou por caminhos mais iluminados do que os que pegamos ao ir para sua casa, de certa forma, estavam todos igualmente desertos, não menos assustadores sem o vento, a lua continuava ilumnando o céu e a tudo que a cercava, em cada rua por qual passávamos, ela era a única coisa que não mudava de lugar, nos seguia como se brincassemos de esconde-esconde, em questão de quinze minutos, chegamos à frente de meu prédio, notando as poucas luzes acesas por dentro das janelas vizinhas.
- Eu me diverti muito com você hoje à noite. – Comentei antes de entrar.
- Eu também. Durma bem, amanhã será um longo dia...Espero que tenha gostado do passeio, apenas me prometa que não irá seguir por aqueles caminhos escuros de noite sozinha. – Ele ficava tão fofo quando mostrava preocupação, chegou um passo a minha frente para acariciar meu rosto elevando sua mão do meu queixo as minhas bochechas e se inclinou para beijar minha testa afastando-se rápido depois.
- Certo, vou tentar evitar aqueles caminhos. Mas pretendo te convidar a outros passeios como este quando estiver disposto a acompanhar meu ritmo, você é meio devagar. – Eu gostava de provoca-lo vez ou outra, era meu passatempo predileto. Só admito que não é fácil se submeter ao meu ritmo em passeios, eu era bastante veloz, para não afirmar que parecia que eu corria ao andar.
- Não, o problema é que você anda muito mais rápido do que a maioria das pessoas, não é de se estranhar que você seja magra, mas se você quiser...Vou ser mais rápido da próxima vez. – Um brilho estranho tomara conta dos olhos de Derry, eu via a malícia de perto, como se ele fosse me devorar, mas eu não temia, ao contrário, eu adorava vê-lo sedento por mim, ou por qualquer outra coisa que ele procurava em meus olhos, me imolizava inteira com aquele olhar penetrante e me hipnotizava até que caíssemos em si meio envergonhados com essa estranha reação provocada pela atração que se rebelara em alguns momentos. O chato é que ele nunca passava dos limites, e eu já esperava por isso há algum tempo, decidida que um dia ele não se recusaria a seguir seus instintos, sei explorar suas fraquezas, e em mim existia alguma.
- Pode ser. Então tchau.
- Tchau – Ele se virou e deu as costas a andar vagarosamente olhando para o chão, parecia tão gracioso, meio desnorteado também, quando o cansaço vinha, não havia como se lutar contra ele. Eu estava de novo em casa e confesso que nunca me senti tão apaixonada por Derry como agora. O vício tomou conta de meu corpo e estava completamente fora de controle, tanto que eu dedicava boa parte de minha vida a ele.
“Quando o frio tomar conta de meu corpo, terei sua voz para me aquecer e o sangue que corre em minhas veias ferverá junto com meu coração que estará sempre pulsando fortemente por você”